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Regresso a Couchel - Blogue

Aqui confirmamos sempre se não estamos enganados nem a enganar ninguém

Regresso a Couchel - Blogue

Aqui confirmamos sempre se não estamos enganados nem a enganar ninguém

RIBEIRA DE VILA CHÃ

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RIBEIRA DE VILA CHÃ
Marginada pela Ribeira de Vila Chã em metade da sua periferia, a “Ribeira” era uma terra de regadio moderado, com uma larga leira de cultura de milho, a outra metade de sequeiro; um corrimão de videiras rodeava a propriedade, um outro atravessava-a entre os dois extremos mais distantes.
A Ribeira era os olhos da cara do meu avô. Mas não só dele. Num poço mais ou menos a meio e ao lado do percurso da Ribeira de Vila Chã em redor, ficaram-me lá rios de suor a tirar toneladas de água à picota, (burro, na minha terra), nos meus dezassete anos, e o sabor de enguias fritas, “pescadas” numa das limpezas ao poço ainda nos meus anos de escola.
Uma terra espectacular: Milho, abóboras, melões, feijão… na leira do outro lado, leguminosas a azotar a terra: tremoços, grão de bico…

Vinha o tempo da colheita.
O meu avõ instalava taipais no carro de bois, enchia-o de espigas de milho; por cima acrescentava molhos de tremoceiros a chocalhar, abóboras, cebolas penduradas nos fueiros, cabaças, pernadas de macieira aqui e ali.
O sacrifício dos animais na subida para Couchel não era o espectáculo mais bonito de se ver… contudo, perante uma aldeia embasbacada à obra de arte do meu avô a Joana Vasconcelos não tinha qualquer hipótese.
Aniceto Carvalho

O INDUSTRIAL DE COUCHEL

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O INDUSTRIAL DE COUCHEL

Homem do norte, sem que se saiba porquê, criou uma fábrica nos arredores de Lisboa, na Linha de Sintra: 150 postos de postos de trabalho, numa aldeia satélite do Cacém, onde antes não havia nada nem coisa nenhuma.
Vieram novas gentes, mais casas, a mercearia, o lugar de hortaliça, as tabernas, as casas de pasto, a igreja paroquial, os correios, a sociedade recreativa, a filarmónica, o jazz band, o cinema, o teatro… a zona era aprazível, passou a ser conhecida, um refúgio de centenas de veraneantes lisboetas ao fim de semana no Verão.
O homem do norte morreu em finais dos anos cinquenta. Sem herdeiros para lhe continuarem a obra, da antiga fábrica de curtumes resta lá o local.
Hoje, em Rio de Mouro Velho, ninguém saberá quem foi António Pedroso, o industrial de Couchel, Vila Nova de Poiares, nem uma inscrição numa chapa enferrujada num muro… Mas do estudante rambóia, baladeiro ANTIFASCISTA que, com tudo do melhor nem uma vida responsável soube orientar, toda a gente sabe até a cor das cuecas.
Aniceto Carvalho

QUAL O GALARDÃO?

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(O meu pai, a minha sogra e a minha mãe - 1963)

QUAL O GALARDÃO?

Qual o galardão para um homem que nunca teve uma bicicleta, que reune à sua volta aos setenta anos de idade nove filhos, (dos dez um tinha morrido aos vinte anos de morte natural), todos amigos, todos com vida estável e decente, com casa própria e carro à porta à conta do seu trabalho e honestidade? 
Chamava-se José Adelino Ferreira de Carvalho e era meu pai.

Aniceto Carvalho

GRELOS DE COUCHEL

GRELOS DE COUCHEL
Chegava-se a Couchel, e chega-se ainda hoje, por uma estrada escavada obliquamente na encosta de xisto, na qual, a partir do terceiro troço, só com alguns cuidados na escolha das velocidades e sem abrandar o pé do acelerador, se chegava ao planalto sem tremuras nem vacilações.
Num planalto, portanto, Couchel tinha cerca de trinta casas, alimentava na altura uma população a rondar as sete dezenas de almas, muito distante da conhecida fome e miséria que hoje se vê noutras lonjuras por esse mundo fora.

Couchel é, por certo, uma terra ancestral, com condições para ter sido habitada desde a primeira fixação humana, antes dos castros, antes de tudo.  
Couchel não era o que parecia à chegada… Rodeado de linhas de água, de uma rua só, como uma coluna vertebral do lugar, toda a parte de trás da aldeia  inclinava suave numa zona de microclima incomum de aceitável regadio.
Para além do maior ou menor quintal caseiro que toda a gente tinha, eram nas traseiras da povoação até aos Marmeleiros a Quinta do Senhor Abel da Venda Nova, logo ao lado o sempre impecavelmente cultivado quintal do Ti António Henriques.
Tudo do Ti António Henriques era maior e melhor. Os Porcos, as galinhas, o milho da Ribeira, os figos da figueira em frente do quintal do meu avô.
Desta vez o Ti António Henrique tinha semeado o quintal de nabos.
Chegou a altura, o Ti António Henriques deu grelos a quem os quis... era uma tarefa à minha medida, lá fui eu apanhar grelos. À ganância.
Era bom, a minha avó sabia fazer com grelos verdadeiros manjares, durante vários dias foram verdadeiros banquetes romanos.
Fiquei viciado em grelos pela vida fora. De tal maneira que, desde essa altura, durante latgos anos, grelos era comigo...  de qualquer maneira.
Aniceto Carvalho

O ANCINHO E A GADANHA

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O ANCINHO E A GADANHA

(Beira Litoral interior, a dois passos da Beira Alta).

Na minha terra, o ancinho mais usado tinha o pente de madeira com pregos de cerca de 20 centímetros. A Gadanha era a aqui representada.

Na minha aldeia havia sempre alguém a passar uns dias na terra que estava há anos a viver em Lisboa. Como qualquer provinciciano que tinha pegado de estaca no Poço do Bispo ou em Alcântara, alguns deles voltavam à terra armados em alfacinhas parolos, por vezes "sem se lembrarem" de que tinham ali nascido.

Um destes “lisboetas” encontrou um ancinho ao lado de um corrimão.
Há três anos fora da terra "não se lembrava" como aquilo se chamava nem para o que servia… Perguntou à rapaziada dos velhos tempos.
A ver mal, com a crista a adejar à frente dos olhos, pôs o sapato precisamente onde não devia... O cabo do ancinho empinou como uma mola, veio de lá, deixou-o a andar de roda com um galo na testa do tamanho de um ovo.

- É UM ANCINHO!!! - gritou ele, lembrando-se de repente.

Aniceto Carvalho

O LAMPIÃO

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O VERDADEIRO LAMPIÃO.

https://repositorioaberto.uab.pt/handle/10400.2/6548

Suponho que, quase de certeza, a única lanterna deste tipo no mundo nos meados do Século XX, fabricada em Portugal pela Fábrica Hipólito, de Torres Vedras. 

Andávamos a dar uma volta por Marselha, tínhamos entrado numa casa comercial... ao vislumbrar um objecto destes entre as mercadorias, um colega meu do curso que estávamos a tirar na Sud-Aviation, parecia ter encontrado uma pepita de ouro:

- Aos anos que eu procuro uma coisa destas!... - exclamou ele. - Ficámos atentos, ele explicou melhor: - É para oferecer ao meu sogro. 

Eu conhecia desde pequenino o LAMPIÃO, da Fábrica Hipólito. Expliquei:

- Isso é feito em Portugal lá bem perto da casa do teu sogro.

(A mulher dele era da região saloia). 

O Ferreira da Costa pediu ao logista se podia confirmar. Constatou, reservou a compra para quando chegasse a Portugal. ACONTECE.

Quase comecei a andar lado a lado com um LAMPIÃO, como este, que o meu avõ segurava na mão esquerda, quando à noite ia à Quinta tratar dos bois.

A luz do lampiáo projetava na parede de uma das casas do lugar a sombra das pernas do meu avô como uma tesoura gigantesca a abrir e a fechar... com quatro ou cinco anos, a minha imaginação pregava-me partidas levadas do diabo.  

Aniceto Carvalho

TUDO O QUE SOMOS

TUDO O QUE SOMOS

Tudo o que somos, o que comemos, o que bebemos, até os medicamentos que tomamos para a súde, tiramos da terra que pisamos. TUDO.

Toda a agricultura na minha terra era basicamente aproveitada de linhas de água, de terras razoavelmente aráveis e férteis, drenadas de poços e valas de escuamento, alimentadas de nutrientes que escorriam das encostas em redor.
De subsistência… o melhor que havia, no entanto.

Vale do Forno, Boiça, Património, Abelheiras, Ínsua, Marmeleiros... 
Aquelas terras sagradas, hoje a mato de metros, alimentaram gerações de seres humanos em milénios que nunca pensaram em atravessar desertos e oceanos para se deixarem vender como escravos em paraísos distantes.
BASTAVA-LHES TRABALHAR
Aniceto Carvalho 

PASSOU-SE EM COUCHEL

PASSOU-SE EM COUCHEL

(O grilo e a pirilampa)
Um grilo tinha uma tara por pirilampas. Via uma luzinha a piscar, não resistia, saltava-lhe para cima. Domingo, noite de Verão, passeava na frescura da Quelha do Valezinho, viu um tremelicar na vereda para a Eira dos Santinhos. Aproximou-se sorrateiramente, por trás, pé ante pé…
ERA UMA BEATA… FICOU TODO QUEIMADINHO
Aniceto Carvalho

A junta de bois

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A JUNTA DE BOIS

A minha terra não é região de gado cavalar. Nem pouco mais ou menos.

Lembro-me do Ti António Henriques, numa égua lazarenta a cair de velha que mal podia com a sela, (o Ti António Henriques pesava mais de cem quilos, o pobre animal morreu pouco depois), e da pileca do Doutor Sanches da Gama, mais ou menos o Rocinante do Dom Quixote.

Mais nada. Os caminhos e a agricultura da região não eram para carroças, ter um muar só para ir daqui para ali não fazia parte da vida dos habitantes de entre o Ceira e o Mondego.

Do preço de uma das mais sofisticadas alfaias da actualidade, a junta de bois contudo, era muito mais que isso, muito mais que uma qualquer máquina por muito que esta superasse o trabalho dos animais. A junta de bois não era uma máquina que se deixava parada no telheiro, que no dia seguinte se acionava um interruptor e a vida continuava. Não. Tratar da junta de bois faz parte das obrigações familiares: Noite dentro, depois do serão, os animais têm de ser "visitados", é preciso chegar-lhes a água, arranjar-lhe a cama e aconchegar-lhe a manjedoura.

Uma  junta de bois faz parte da família.

NA ESCOLA DE VALE VAZ - PRIMEIROS TEMPOS. (42/43)

"O boi é mais elegante e airoso que o cavalo" - respondi eu.

A minha professora da primeira ou segunda classe olhou para mim lá do alto, gozou com a meu gosto duvidoso. Mas não me perguntou o porquê  da minha apreciação.

Não perguntou. Se tivesse perguntado, eu tinha respondido:

- Porque os bois fartam-se de trabalhar e os cavalos não fazem nenhum.

Pelos vistos, já na altura eu achava que trabalho e penacho eram coisas diferentes.

Aniceto Carvalho 

Oração a São Gregório

Oração a São Gregório

Não sei se porque as trovoadas eram mais intensas na altura, ou porque eu ainda estava na fase de estranhar às más disposições da natureza, fazia-me confusão o ribombar da intempérie pelos montes e vales em redor, e as faíscas a riscarem o negrume das encostas.

A minha avó rezava à Santa Bárbara e ao São Gregório, eu tremia no meio do desassossego das noites tenebrosas, o meu avô dizia que “eram eles lá em cima às voltas com a mobília”.

As minhas tias, a Dora, a minha madrinha, e a Alcina, iam para o piso superior da casa, não ligavam importância nenhuma ao festival.

Até aos seis anos… Porque depois, com o ciclone de Fevereiro de 1941, talvez pelo que com a ajuda da minha madrinha começava a tirar dos jornais que forravam as prateleiras da cozinha, estava a parecer-me que havia qualquer coisa a precisae de ser melhor explicado.

Mas havia uma tradição: E quer o meu avô não ligasse, e as coisas da religião pouco dissessem às minhas tias e aos meus pais, éramos cristãos. A minha avó era a devota da casa por todos: Eu apenas tive de seguir todos os preceitos de um bom cristão e da Santa Madre Igreja. 

Sem problemas… nunca me deu por dentro nem por fora.

De tal modo que, levei as coisas tão a sério que, até hoje, mais de setenta anos passados, a oração ao São Gregório ainda não me esqueceu:

ORAÇÃO AO SÃO GREGÓRIO

(Guardem-na… pode dar jeito nas trovoadas mais fortes).

São Gregório se levantou, sua cajadinha tomou, lá no meio do caminho Jesus Cristo encontrou, Jesus Cristo perguntou: Para onde vais São Gregório? 

Vou derramar essas trovoadas que sobre nós andam armadas.

Derrama-as lá para bem longe onde não haja eira nem beira nem folhinha de figueira, nem mulher com menino, nem vaca com bezerrinho, nem pedrinha de sal, nem nada que nos faça mal…  ÁMEM

Aniceto Carvalho  

O Lugar de Couchel

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O Lugar de Couchel

FESTA DE ALDEIA

Anos 40 do Século XX. Os arcos eram feitos de dois pinheiros jovens um de cada lado rua, a formar um arco no alto, revestidos de alto a baixo de era e outras plantas ornamentais da época; as ruas, especialmente à porta das casas, eram atapetadas de rosmaninho, alecrim, urze, etc.

A capela era decorada com conjuntos de plantes em germinação que, com diversas cores e tons davam um realce de regalar os olhos.

Música, foguetes, baile… imaginem o resto e o cheiro no ar.

Lembro-me apenas disto muito por alto e, desgraçadamente, porque mais ninguém sabe nada, nem quer sabeer, tem de ficar assim mesmo.

Aniceto Carvalho

As grades da minha esola

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As grades da minha escola

Vale de Vaz, princípios dos anos quarente do Século XX. A minha escola primária em toda a sua grandeza, como eu a frequentei de 1942 a 1946. Embora não se veja nesta imagem, a Estrada da Beira passa logo a seguir ao carreiro, depois da escola, a meia dúzia de metros. Apesar do local perigoso, (A Estrada da Beira tinha então um movimento já bastante considerável), "apenas" um miúdo teve ali um acidente fatal ainda antes de eu ter entrado na escola.

(Uma das primeiras coisas que aprendi na vida como se fosse um Padre Nosso foi saber andar na Estrada da Beira: sempre pela esquerda, no passeio oposto de frente para os carros). 

Notem bem: Quarenta (40) alunos das quatro classes, apenas uma e só uma professora.
No meu último ano de primária esta adolescente de 19 anos, levou “todos os dez alunos da 4ª. Classe” a exame e ficaram todos aprovados. Á pergunta do presidente do júri sobre a avaliação queela fazia dos seus alunos respondeu:

“Os meus alunos são todos para ficarem aprovados... o Domingos é para ficar distinto”.

Nesse tempo os miúdos não ficavam meses à espera de saber o resultado de uma disciplina… os mesmos eram afixados à porta da escola minutos depois dos exames terminados.
E lá estava: “Todos aprovados, o Domingos, distinto”. Acreditem:
Esta jovem professora dava ginástica, (ela própria), organizava jogos, levava-nos a ver filmes históricos,  “Inês de Castro”, por exemplo, e a fazer pique niques nas margens do Ceira.
(Era de Vide... a cem quilómetros da minha terra).
Percebem, ou querem que explique melhor?
Na foto do lado direito, na sombra onde está estacionado o carro, no Rossio de Vale de Vaz, era o recinto do recreio, no largo da terra, em pleno ar livre. (E nunca ninguém morreu). 
Está lá o edifício. Mas há muito que esta escola, e depois a da Gândara, que serviam aquela Zona Sul de Vila Nova de Poiares, Vale de Vaz, Couchel, Vale de Vaíde, Framilo, Valeiro das Hortas, Vale de Viegas, Cascalho, etc., deixaram de funcionar por falta de crianças.

Aniceto Carvalho

Em memória da minha irmã

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Em memória da minha irmã

Acreditem ou não, eu lembro-me perfeitamente de ter tirado esta fotografia, do diálogo do meu pai com o fotógrafo que não conseguia acertar com o boneco como o Ti Zé Adelino queria.  

 Clic e veja: - Um dia inesquecível

SAUDADE DE UM FILHO - À mãe 

Maria Alice Ferreira de Carvalho

...um ano passou e continuo em negação.

Penso para mim que tudo não passa de um sonho, dos muitos sem sentido que costumo ter. Mas mais longo, ainda mais sem sentido.

A saudade alimenta a esperança de ouvir a tua voz num telefonema.
A ansiedade cresce sempre que penso em "ir lá acima" e poder ver-te.
Só que nada disto é um sonho.
"Acordo", refugio-me na dormência das lembranças, como se de ópio ou outro similar se tratasse e sigo, um dia de cada vez.

365 dias depois, passou-se um Natal, um Dia da Mãe e um aniversário teu.

Não estiveste, mas eu entendo.
Há uma forte razão para isso:
Chama-se vida.
Com tudo o que ela alberga.

Foste tu que me geraste.
Foste tu que te sacrificaste para que eu pudesse enfrentar o mundo.
Foste tu, que mesmo no fim, mostrou o que é ser-se valente.

Foste sem dúvida a mulher mais corajosa que alguma vez conheci.

Um ano passou. E volto a repetir:
Foi um privilégio ser a tua cria mais nova.
Um enorme beijo e o calor de um abração do tamanho da minha saudade.

António Carvalho Gouveia

Aniceto Carvalho

Em memória do meu irmão

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Em memória do meu irmão

Carlos José Ferreira de Carvalho

Falecido em 07 de Dezembro de 2017 com 78 anos de idade.

Comparando com o que este lutou pela pátria, outros que têm o nome de ruas espalhados por este país nem o nome de pocilgas deviam ter.

Nós os dois em Tourais, Seia, numa visita que eu e o afilhado dele, o meu filho, lhe fizemos em Setembro de 2015.

Sou o de casaco, mais velho quatro anos.

Perante o mundo e a vida sempre fomos os dois em relação um ao outro mais ou menos o que a fotografia mostra.

Aniceto Carvalho

Um ninho na Fonte das Tortas

Um ninho na Fonte das Tortas

Encontrar um ninho deste artista, um rouxinol, era um prodígio.

Um dia encontrei um na Fonte das Tortas. Na minha melhor boa fé, corri a ensiná-lo ao Alberto “Mascarenhas”, o meu maior amigo. Avisei-o repetidamente:
- Se roubares este ninho, mato-te, corto-te aos bocadinhos e dou-os ao cão 
da Abessada, o Mondego, e ao Liró, o cão do Ti António Henriques!
O Alberto nem pestanejou: Logo que virei as costas, roubou o ninho.
Não matei o Alberto “Mascarenhas” mas, fica aqui dito que foi por uma unha negra que não o entreguei num cestinho à ti Maria do Alpendre.
Clic e recorde:

http://projectoteclar.blogspot.pt/2007/06/os-ninhos.html

“Mascarenhas” porque a minha tia Alcina achava que Mascarenhas queria dizer artolas. Mas não. O Alberto não era artolas. Nem perto. Na verdade era mais ajuizado do que eu com uma paciência infinita para me aturar.

O Alberto continuou a ser o meu maior amigo, por certo o meu melhor amigo de todo o sempre se acaso tivéssemos seguido vidas próximas.
Esteve de visita em minha casa em 1965, antes da minha segunda comissão, cada um voltou a seguir o seu caminho, nunca mais o voltei a ver.

Aniceto Carvalho

Cestos da minha terra

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Os cestos da minha terra

Como facilmente se reconhece, estes cestos usados na minha região não  eram feitos de vime entrançado, mas sim em madeira de salgueiro branco que tem o particular de se deixar transformar em tiras de mais ou menos um ou dois metros de comprido, dois ou três centímetros de largura, um ou dois milímetros de espessura.

O cesto da minha terra tinha o formato do exemplar em cima, à squerda, com o dobro da largura em relação à altura Basicamente existiam cestos com três tamanhos: O normal, grande, com a capacidade de um alqueire, cerca de 20 litros, um médio, metade deste  volume, e um mais pequeno, de dois litros, para as crianças aprenderem como se faziam as coisas e custava o trabalho.

Embora também por vezes se lhe chamasse canastra, a canastra era no entanto, mais pequena, oval, achatada e usada pelas vareiras da região  marítima Oeste, Aveiro, Ovar, etc., ou varinas, em Lisboa.

O exemplar em cima, à direita, era uma cesta: Mais funda, redonda, mais larga, com um metro de diâmetro.

"Ajoujada", na minha terra, na altura, tinha o sentido de carregada.

Dizia-se que uma mulher ia "ajoujada" quando carregava uma cesta destas  à cabeça cheia de produtos da terra, com alfaias, sabe-se lá que mais, que  mesmo com as mãos na cintura, até os filhos levava lá dentro.

Aliás era perfeitamente normal as mulheres da altura não precisasarem  das mãos para nada para segurarem à cabeça uma cesta de espigas de milho ou um cântaro de almude cheio de água.

Aniceto Carvalho

As cuecas pretas da Arminda

As cuecas pretas da Arminda

Naquele tempo, por volta da metade dos anos 40, bem antes e depois, todo o bocado onde fosse possível plantar uma couve ou semear uma batata era aproveitado na minha terra.

A zona sempre foi bastante limitada de recursos agrícolas.

Cá em baixo, no vale, nas margens da Ribeira de Vila Chã, nem tanto, as culturas eram de regadio sofrível, mas lá em cima, no planalto de Couchel, cá para mim uma ancestral fortaleza natural de atalaia às avoengas da Estrada da Beira, salvo dois ou três casos de poços profundos com minas, boa parte das leiras não tinham um pingo de água no Verão.

Uma dessas leiras era do meu avô: Um rectângulo de torrões ressequidos em ligeira inclinação do Cabeço para a quelha da Avessada, que dava grão de bico e tremoços para azotar a terra em poisio, e cereal de segunda qualidade, centeio, cevada e aveia na época mais fértil.

Melhor ou pior, era a altura da ceifa. As ceifeiras eram a minha tia Dora, minha madrinha, uma rapariga de 23 anos, um torrão de açúcar na época, e a Arminda, uma mocetona peituda com a mesma idade, que transpirava hormonas, e umas pernas que pareciam duas colunas jónicas.

Eu andava por ali. Se as duas moças me davam corda, o que era normal, não era de esperar que eu fosse rezar na Capela da Eira dos Santinhos. Tinha os meus oito ou nove anos, não era cego, o meu avô dava uma ajudinha a completar o ramalhete.

A Dora olhou para o lado, fez sinal à Arminda, a Arminda olhou para baixo, apanhou-me esparramado de costas no chão com os olhos cravados lá no alto mesmo no meio das pernas dela. Não fui tão rápido como pensava, fui atropelado por um combóio de mercadorias, só parei de rebolar nas Paúlas, cerca de um quilómetro depois, a dois passos da Ponte Velha.

Sacudi as parganas, fiquei pronto para outra.

Mas um enigma perdurou no tempo: Até hoje nunca cheguei a descobrir se o que eu vi eram as cuecas pretas da Arminda.

Pulhas, ancestral tradição

Com a devida vénia… (Extraído do SITE)

Junta de Dreguesia de Pampilhosa da Serra

As pulhas ou deitar as pulhas era um divertimento carnavalesco.

Nesta quadra, durante a noite, um reduzido número de rapazes/homens dirigia-se para o morro alto dos arredores da sua povoação e daí gritavam graças (em frases ou mais usualmente em verso) alusivas a factos relacionados com as pessoas da comunidade. Quando as condições geográficas o permitiam, através da existência de mais morros no perímetro da povoação, chagava-se mesmo a estabelecer diálogo previamente combinado entre grupos situados em morros diferentes.

Nas pulhas revelavam-se muitos namoros, até infidelidades encobertas, quantas vezes levantando-se calúnias. Muitas situações difíceis, com pessoas atingidas ou familiares a perseguirem os deitadores das pulhas, foram dos aspectos mais delicados e comprometedores a contribuir para que a tradição acabasse, embora num passado ainda muito recente fosse realidade na Pampilhosa.

O reduzido número de participantes tinha por objectivo, por um lado, a manutenção do segredo do anonimato, anos fora, consoante a gravidade das acusações pulhadas, por outro, para permitir uma mais fácil fuga, em caso de pressentimento de tentativa de esforço. Neste caso, chegavam a dividir-se, indo cada um para o seu lado, reunindo-se posteriormente em local previamente combinado.

As pulhas tinham também os seus apetrechos próprios: um funil de cone bastante largo e com bocal na extremidade do tubo, para o que deitava as pulhas.Outro elemento levava um bacamarte já que durante as pulhas mandava uns fogachos para intimidar os possíveis ousados perseguidores.

Entre o arrazoado das pulhas, de vez em quando gritava: - Companheiro da esquerda, fogo! – e saía fogo. Depois mandava o companheiro da direita de onde saía fogo. Quase sempre era o mesmo, mas quem ouvia ficava sempre na dúvida se seriam só dois ou três ou até mais.

Até porque este grupo poderia ter outros elementos afastados, de segurança, em local estratégico que prescutaria o início da perseguição avisando com sinal próprio os seus companheiros das pulhas.

O deitador de pulhas, embora o funil já distorcesse a voz, ainda mais a disfarçava, mesmo na pronúncia a fim de não ser reconhecido. O morro mais usual donde eram deitadas as pulhas era os Outeiros (Oiteiros); também algumas vezes no Areal – Gândara estabelecendo-se o tal diálogo.

NOTA PESSOAL À MARGEM

Na minha terra, concelho de Vila Nova de Poiares, nos limites com o concelho da Lousã, a tradição das PULHAS foi proibida e acabou nas proximidades do final da Segunda Grande Guerra.

Aniceto Carvalho

Coroa de Glória

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O meu neto Carlos Miguel, em 1993, com dois anos

Até a mim hoje custa acreditar que eu próprio tenha feito uma coisa destas sem ter a menor ideia de como se trabalhava a fibra de vidro.

O material, contudo, não me era totalmente estranho: As portas de trás do Alouette III, como boa parte do JetRanger eram em fibra de vidro.

Ter-se-á partido uma porta de um helicóptero, não me admiro se acaso fui incumbido de resolver situação: Terei ficado com uma vaga ideia de umas bisnagas de produtos pastosos que se misturavam em certas doses, da qual resultava uma superfície plana ou moldada rígida depois da secagem, trabalhada à bancada, à rebarbadora, à lima, à lixa, etc. e tal, conforme as exigências. Não estava muito longe da realidade.

Se eu tinha resolvido fazer um carro em fibra de vidro, estava decidido:

Localizei dois profissionais do ramo, como troca de lhes comprar todo o material necessário, não foi nada difícil que eles me ensinassem a fazer fibra de vidro como se eu nunca tivesse feito outra coisa na vida.

Na teoria, claro… na prática as coisas foram diferentes.

Só um doido se põe a fazer e a modelar fibra de vidro sem antes ter alguma prática do assunto: Foi precisamente o que eu fiz. Impensável…

O preparado da fibra de vidro é uma mistura de uma resina com um secante, tem um cheiro sufocante do pior, o manuseamento é horrível. 

Mas quando a gente quer, faz: Fiz um molde de um bloco de cortiça, ajustei-lhe a serrapilheira, apliquei-lhe várias camadas de fibra de vidro líquida.

Não custou nada… foi só abominável. Depois, separar o molde de peça moldada… foi como arrancar os dentes a um crocodilo vivo.

O resto foi bancada, rebarbadora, lima, lixa, pulverizador e tinta...   

Como a imagem mostra: Rodas de pneu, suspensão do melhor, direcção assistida, sistema de transmissão de última geração, estava lá tudo.

Dedicação e trabalho à minha maneira… Total.

Pequeno para o destinatário, grande demais para adorno de mesa de sala, nunca funcionou, acabou sem grandeza nem glória na arrecadação.

Ainda assim, foi uma das minhas obras de arte mais bem sucedida.

NOTA: Algumas pessoas menos crédulas poderão alimentar normais dúvidas quando eu digo que fiz isto, aquilo e aqueloutro. Estão no seu pleno e absoluto direito. Mas aqui o bólide teve várias testemunhas que acompanham por aqui tudo o que eu escrevo.

Portanto, por umas podem tirar as outras.   

Aniceto Carvalho

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