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Regresso a Couchel - Blogue

Aqui confirmamos sempre se não estamos enganados nem a enganar ninguém

Regresso a Couchel - Blogue

Aqui confirmamos sempre se não estamos enganados nem a enganar ninguém

PASSOU-SE EM COUCHEL

PASSOU-SE EM COUCHEL

(O grilo e a pirilampa)
Um grilo tinha uma tara por pirilampas. Via uma luzinha a piscar, não resistia, saltava-lhe para cima. Domingo, noite de Verão, passeava na frescura da Quelha do Valezinho, viu um tremelicar na vereda para a Eira dos Santinhos. Aproximou-se sorrateiramente, por trás, pé ante pé…
ERA UMA BEATA… FICOU TODO QUEIMADINHO
Aniceto Carvalho

A junta de bois

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A JUNTA DE BOIS

A minha terra não é região de gado cavalar. Nem pouco mais ou menos.

Lembro-me do Ti António Henriques, numa égua lazarenta a cair de velha que mal podia com a sela, (o Ti António Henriques pesava mais de cem quilos, o pobre animal morreu pouco depois), e da pileca do Doutor Sanches da Gama, mais ou menos o Rocinante do Dom Quixote.

Mais nada. Os caminhos e a agricultura da região não eram para carroças, ter um muar só para ir daqui para ali não fazia parte da vida dos habitantes de entre o Ceira e o Mondego.

Do preço de uma das mais sofisticadas alfaias da actualidade, a junta de bois contudo, era muito mais que isso, muito mais que uma qualquer máquina por muito que esta superasse o trabalho dos animais. A junta de bois não era uma máquina que se deixava parada no telheiro, que no dia seguinte se acionava um interruptor e a vida continuava. Não. Tratar da junta de bois faz parte das obrigações familiares: Noite dentro, depois do serão, os animais têm de ser "visitados", é preciso chegar-lhes a água, arranjar-lhe a cama e aconchegar-lhe a manjedoura.

Uma  junta de bois faz parte da família.

NA ESCOLA DE VALE VAZ - PRIMEIROS TEMPOS. (42/43)

"O boi é mais elegante e airoso que o cavalo" - respondi eu.

A minha professora da primeira ou segunda classe olhou para mim lá do alto, gozou com a meu gosto duvidoso. Mas não me perguntou o porquê  da minha apreciação.

Não perguntou. Se tivesse perguntado, eu tinha respondido:

- Porque os bois fartam-se de trabalhar e os cavalos não fazem nenhum.

Pelos vistos, já na altura eu achava que trabalho e penacho eram coisas diferentes.

Aniceto Carvalho 

Oração a São Gregório

Oração a São Gregório

Não sei se porque as trovoadas eram mais intensas na altura, ou porque eu ainda estava na fase de estranhar às más disposições da natureza, fazia-me um bocado de confusão o violento ribombar da tempestade pelos montes e vales em redor, e as faíscas a riscarem o negrume das encostas.

A minha avó rezava de mãos postas à Santa Bárbara e ao São Gregório, eu tremia de medo no meio do desassossego das noites tenebrosas, o meu avô dizia que “eram eles lá em cima às voltas com a mobília”.

As minhas tias, a Dora, a minha madrinha, e a Alcina, iam para o piso superior da casa, não ligavam importância nenhuma ao festival.

Ao princípio, até aos seis anos… Porque depois, com o ciclone de Fevereiro de 1941, talvez pelo que com a ajuda da minha madrinha começava a retirar dos jornais que forravam as prateleiras da cozinha, estava a parecer-me que havia por ali qualquer coisa que precisava de ser melhor explicado.

Mas havia uma tradição: E quer o meu avô não ligasse, e as coisas da religião pouco dissessem às minhas tias e aos meus pais, éramos cristãos.

A minha avó era a devota da casa por todos: Eu apenas tive de seguir todos os preceitos de um bom cristão e da Santa Madre Igreja.

Sem problemas… nunca me deu por dentro nem por fora.

De tal modo que, levei as coisas tão a sério que, até hoje, mais de setenta anos passados, a oração ao São Gregório ainda não me esqueceu:

ORAÇÃO AO SÃO GREGÓRIO

(Guardem-na… pode dar jeito nas trovoadas mais fortes).

São Gregório se levantou, sua cajadinha tomou, lá no meio do caminho Jesus Cristo encontrou, Jesus Cristo perguntou:

Para onde vais São Gregório?

Vou derramar essas trovoadas que sobre nós andam armadas.

Derrama-as lá para bem longe onde não haja eira nem beira nem folhinha de figueira, nem mulher com menino, nem vaca com bezerrinho, nem pedrinha de sal, nem nada que nos faça mal…  ÁMEM

Aniceto Carvalho  

O Lugar de Couchel

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O Lugar de Couchel

FESTA DE ALDEIA

Anos 40 do Século XX. Os arcos eram feitos de dois pinheiros jovens um de cada lado rua, a formar um arco no alto, revestidos de alto a baixo de era e outras plantas ornamentais da época; as ruas, especialmente à porta das casas, eram atapetadas de rosmaninho, alecrim, urze, etc.

A capela era decorada com conjuntos de plantes em germinação que, com diversas cores e tons davam um realce de regalar os olhos.

Música, foguetes, baile… imaginem o resto e o cheiro no ar.

Lembro-me apenas disto muito por alto e, desgraçadamente, porque mais ninguém sabe nada, nem quer sabeer, tem de ficar assim mesmo.

Aniceto Carvalho

As grades da minha esola

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As grades da minha escola

Vale de Vaz, princípios dos anos quarente do Século XX. A minha escola primária em toda a sua grandeza, como eu a frequentei de 1942 a 1946. Embora não se veja nesta imagem, a Estrada da Beira passa logo a seguir ao carreiro, depois da escola, a meia dúzia de metros. Apesar do local perigoso, (A Estrada da Beira tinha então um movimento já bastante considerável), "apenas" um miúdo teve ali um acidente fatal ainda antes de eu ter entrado na escola.

(Uma das primeiras coisas que aprendi na vida como se fosse um Padre Nosso foi saber andar na Estrada da Beira: sempre pela esquerda, no passeio oposto de frente para os carros). 

Notem bem: Quarenta (40) alunos das quatro classes, apenas uma e só uma professora.
No meu último ano de primária esta adolescente de 19 anos, levou “todos os dez alunos da 4ª. Classe” a exame e ficaram todos aprovados. Á pergunta do presidente do júri sobre a avaliação queela fazia dos seus alunos respondeu:

“Os meus alunos são todos para ficarem aprovados... o Domingos é para ficar distinto”.

Nesse tempo os miúdos não ficavam meses à espera de saber o resultado de uma disciplina… os mesmos eram afixados à porta da escola minutos depois dos exames terminados.
E lá estava: “Todos aprovados, o Domingos, distinto”. Acreditem:
Esta jovem professora dava ginástica, (ela própria), organizava jogos, levava-nos a ver filmes históricos,  “Inês de Castro”, por exemplo, e a fazer pique niques nas margens do Ceira.
(Era de Vide... a cem quilómetros da minha terra).
Percebem, ou querem que explique melhor?
Na foto do lado direito, na sombra onde está estacionado o carro, no Rossio de Vale de Vaz, era o recinto do recreio, no largo da terra, em pleno ar livre. (E nunca ninguém morreu). 
Está lá o edifício. Mas há muito que esta escola, e depois a da Gândara, que serviam aquela Zona Sul de Vila Nova de Poiares, Vale de Vaz, Couchel, Vale de Vaíde, Framilo, Valeiro das Hortas, Vale de Viegas, Cascalho, etc., deixaram de funcionar por falta de crianças.

Aniceto Carvalho

Em memória da minha irmã

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Em memória da minha irmã

Acreditem ou não, eu lembro-me perfeitamente de ter tirado esta fotografia, do diálogo do meu pai com o fotógrafo que não conseguia acertar com o boneco como o Ti Zé Adelino queria.  

 Clic e veja: - Um dia inesquecível

SAUDADE DE UM FILHO - À mãe 

Maria Alice Ferreira de Carvalho

...um ano passou e continuo em negação.

Penso para mim que tudo não passa de um sonho, dos muitos sem sentido que costumo ter. Mas mais longo, ainda mais sem sentido.

A saudade alimenta a esperança de ouvir a tua voz num telefonema.
A ansiedade cresce sempre que penso em "ir lá acima" e poder ver-te.
Só que nada disto é um sonho.
"Acordo", refugio-me na dormência das lembranças, como se de ópio ou outro similar se tratasse e sigo, um dia de cada vez.

365 dias depois, passou-se um Natal, um Dia da Mãe e um aniversário teu.

Não estiveste, mas eu entendo.
Há uma forte razão para isso:
Chama-se vida.
Com tudo o que ela alberga.

Foste tu que me geraste.
Foste tu que te sacrificaste para que eu pudesse enfrentar o mundo.
Foste tu, que mesmo no fim, mostrou o que é ser-se valente.

Foste sem dúvida a mulher mais corajosa que alguma vez conheci.

Um ano passou. E volto a repetir:
Foi um privilégio ser a tua cria mais nova.
Um enorme beijo e o calor de um abração do tamanho da minha saudade.

António Carvalho Gouveia

Aniceto Carvalho

Em memória do meu irmão

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Em memória do meu irmão

Carlos José Ferreira de Carvalho

Falecido em 07 de Dezembro de 2017 com 78 anos de idade.

Comparando com o que este lutou pela pátria, outros que têm o nome de ruas espalhados por este país nem o nome de pocilgas deviam ter.

Nós os dois em Tourais, Seia, numa visita que eu e o afilhado dele, o meu filho, lhe fizemos em Setembro de 2015.

Sou o de casaco, mais velho quatro anos.

Perante o mundo e a vida sempre fomos os dois em relação um ao outro mais ou menos o que a fotografia mostra.

Aniceto Carvalho

Um ninho na Fonte das Tortas

Um ninho na Fonte das Tortas

Encontrar um ninho deste artista, um rouxinol, era um prodígio.

Um dia encontrei um na Fonte das Tortas, na melhor boa fé ensinei-o ao Alberto “Mascarenhas”, o meu maior amigo. Avisei-o repetidamente:
- Se roubares este ninho, mato-te, corto-te aos bocadinhos e dou-os ao cão

da Abessada, o Mondego, e ao Liró, o cão do Ti António Henriques!
O Alberto nem pestanejou: Logo que virei as costas, roubou o ninho.
Não matei o Alberto “Mascarenhas” mas, fica aqui dito que foi por uma unha negra que não o entreguei num cestinho à ti Maria do Alpendre.
Clic e recorde:

http://projectoteclar.blogspot.pt/2007/06/os-ninhos.html

“Mascarenhas” porque a minha tia Alcina achava que Mascarenhas queria dizer artolas. Mas não. O Alberto não era artolas. Nem perto. Na verdade era mais ajuizado do que eu com uma paciência infinita para me aturar.

O Alberto continuou a ser o meu maior amigo, por certo o meu melhor amigo de todo o sempre se acaso tivéssemos seguido vidas próximas.
Esteve de visita em minha casa em 1965, antes da minha segunda comissão, cada um voltou a seguir o seu caminho, nunca mais o voltei a ver.

Aniceto Carvalho

Cestos da minha terra

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Os cestos da minha terra

Como facilmente se reconhece, estes cestos usados na minha região não

eram feitos de vime entrançado, mas sim em madeira de salgueiro branco

que tem o particular de se deixar transformar em tiras de mais ou menos

um ou dois metros de comprido, dois ou três centímetros de largura, um

ou dois milímetros de espessura.

O cesto da minha terra tinha o formato do exemplar em cima, à squerda,

com o dobro da largura em relação à altura

Basicamente existiam cestos com três tamanhos: O normal, grande, com

a capacidade de um alqueire, cerca de 20 litros, um médio, metade deste

volume, e um mais pequeno, de dois litros, para as crianças aprenderem como se faziam as coisas e custava o trabalho.

Embora também por vezes se lhe chamasse canastra, a canastra era no

entanto, mais pequena, oval, achatada e usada pelas vareiras da região

marítima Oeste, Aveiro, Ovar, etc., ou varinas, em Lisboa.

O exemplar em cima, à direita, era uma cesta: Mais funda, redonda, mais larga, com um metro de diâmetro.

"Ajoujada", na minha terra, na altura, tinha o sentido de carregada.

Dizia-se que uma mulher ia "ajoujada" quando carregava uma cesta destas

à cabeça cheia de produtos da terra, com alfaias, sabe-se lá que mais, que

mesmo com as mãos na cintura, até os filhos levava lá dentro.

Aliás era perfeitamente normal as mulheres da altura não precisasarem

das mãos para nada para segurarem à cabeça uma cesta de espigas de

milho ou um cântaro de almude cheio de água.

Aniceto Carvalho

As cuecas pretas da Arminda

As cuecas pretas da Arminda

Naquele tempo, por volta da metade dos anos 40, bem antes e depois, todo o bocado onde fosse possível plantar uma couve ou semear uma batata era aproveitado na minha terra.

A zona sempre foi bastante limitada de recursos agrícolas.

Cá em baixo, no vale, nas margens da Ribeira de Vila Chã, nem tanto, as culturas eram de regadio sofrível, mas lá em cima, no planalto de Couchel, cá para mim uma ancestral fortaleza natural de atalaia às avoengas da Estrada da Beira, salvo dois ou três casos de poços profundos com minas, boa parte das leiras não tinham um pingo de água no Verão.

Uma dessas leiras era do meu avô: Um rectângulo de torrões ressequidos em ligeira inclinação do Cabeço para a quelha da Avessada, que dava grão de bico e tremoços para azotar a terra em poisio, e cereal de segunda qualidade, centeio, cevada e aveia na época mais fértil.

Melhor ou pior, era a altura da ceifa. As ceifeiras eram a minha tia Dora, minha madrinha, uma rapariga de 23 anos, um torrão de açúcar na época, e a Arminda, uma mocetona peituda com a mesma idade, que transpirava hormonas, e umas pernas que pareciam duas colunas jónicas.

Eu andava por ali. Se as duas moças me davam corda, o que era normal, não era de esperar que eu fosse rezar na Capela da Eira dos Santinhos. Tinha os meus oito ou nove anos, não era cego, o meu avô dava uma ajudinha a completar o ramalhete.

A Dora olhou para o lado, fez sinal à Arminda, a Arminda olhou para baixo, apanhou-me esparramado de costas no chão com os olhos cravados lá no alto mesmo no meio das pernas dela. Não fui tão rápido como pensava, fui atropelado por um combóio de mercadorias, só parei de rebolar nas Paúlas, cerca de um quilómetro depois, a dois passos da Ponte Velha.

Sacudi as parganas, fiquei pronto para outra.

Mas um enigma perdurou no tempo: Até hoje nunca cheguei a descobrir se o que eu vi eram as cuecas pretas da Arminda.

Pulhas, ancestral tradição

Com a devida vénia… (Extraído do SITE)

Junta de Dreguesia de Pampilhosa da Serra

As pulhas ou deitar as pulhas era um divertimento carnavalesco.

Nesta quadra, durante a noite, um reduzido número de rapazes/homens dirigia-se para o morro alto dos arredores da sua povoação e daí gritavam graças (em frases ou mais usualmente em verso) alusivas a factos relacionados com as pessoas da comunidade. Quando as condições geográficas o permitiam, através da existência de mais morros no perímetro da povoação, chagava-se mesmo a estabelecer diálogo previamente combinado entre grupos situados em morros diferentes.

Nas pulhas revelavam-se muitos namoros, até infidelidades encobertas, quantas vezes levantando-se calúnias. Muitas situações difíceis, com pessoas atingidas ou familiares a perseguirem os deitadores das pulhas, foram dos aspectos mais delicados e comprometedores a contribuir para que a tradição acabasse, embora num passado ainda muito recente fosse realidade na Pampilhosa.

O reduzido número de participantes tinha por objectivo, por um lado, a manutenção do segredo do anonimato, anos fora, consoante a gravidade das acusações pulhadas, por outro, para permitir uma mais fácil fuga, em caso de pressentimento de tentativa de esforço. Neste caso, chegavam a dividir-se, indo cada um para o seu lado, reunindo-se posteriormente em local previamente combinado.

As pulhas tinham também os seus apetrechos próprios: um funil de cone bastante largo e com bocal na extremidade do tubo, para o que deitava as pulhas.Outro elemento levava um bacamarte já que durante as pulhas mandava uns fogachos para intimidar os possíveis ousados perseguidores.

Entre o arrazoado das pulhas, de vez em quando gritava: - Companheiro da esquerda, fogo! – e saía fogo. Depois mandava o companheiro da direita de onde saía fogo. Quase sempre era o mesmo, mas quem ouvia ficava sempre na dúvida se seriam só dois ou três ou até mais.

Até porque este grupo poderia ter outros elementos afastados, de segurança, em local estratégico que prescutaria o início da perseguição avisando com sinal próprio os seus companheiros das pulhas.

O deitador de pulhas, embora o funil já distorcesse a voz, ainda mais a disfarçava, mesmo na pronúncia a fim de não ser reconhecido. O morro mais usual donde eram deitadas as pulhas era os Outeiros (Oiteiros); também algumas vezes no Areal – Gândara estabelecendo-se o tal diálogo.

NOTA PESSOAL À MARGEM

Na minha terra, concelho de Vila Nova de Poiares, nos limites com o concelho da Lousã, a tradição das PULHAS foi proibida e acabou nas proximidades do final da Segunda Grande Guerra.

Aniceto Carvalho

Mar da Palha - Panorâmica

(12)Mar da Palha.pngEsta fotografia foi tirada do Porto Brandão, na margem esquerda do Estuário do Tejo, em frente de Belém, de modo a apanhar o máximo da cidade de Lisboa. Não é visível qualquer terra da margem Sul do Mar da Palha.

Clic e veja: - Ecos do Mar da Palha

Clic e veja: - Montijo visto de fora

 

Clic e veja: - Galeras, carroças e faluas

Recorde a "Linda falua", "uma belíssima canção infantil que eu cantava no recreio, no interior da Beira Litoral, na primeira metade dos anos 40.

Primeira metade dos anos 40... não confundam.

Aniceto Carvalho

Coroa de Glória

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O meu neto Carlos Miguel, em 1993, com dois anos

Até a mim hoje custa acreditar que eu próprio tenha feito uma coisa destas sem ter a menor ideia de como se trabalhava a fibra de vidro.

O material, contudo, não me era totalmente estranho: As portas de trás do Alouette III, como boa parte do JetRanger eram em fibra de vidro.

Ter-se-á partido uma porta de um helicóptero, não me admiro se acaso fui incumbido de resolver situação: Terei ficado com uma vaga ideia de umas bisnagas de produtos pastosos que se misturavam em certas doses, da qual resultava uma superfície plana ou moldada rígida depois da secagem, trabalhada à bancada, à rebarbadora, à lima, à lixa, etc. e tal, conforme as exigências. Não estava muito longe da realidade.

Se eu tinha resolvido fazer um carro em fibra de vidro, estava decidido:

Localizei dois profissionais do ramo, como troca de lhes comprar todo o material necessário, não foi nada difícil que eles me ensinassem a fazer fibra de vidro como se eu nunca tivesse feito outra coisa na vida.

Na teoria, claro… na prática as coisas foram diferentes.

Só um doido se põe a fazer e a modelar fibra de vidro sem antes ter alguma prática do assunto: Foi precisamente o que eu fiz. Impensável…

O preparado da fibra de vidro é uma mistura de uma resina com um secante, tem um cheiro sufocante do pior, o manuseamento é horrível. 

Mas quando a gente quer, faz: Fiz um molde de um bloco de cortiça, ajustei-lhe a serrapilheira, apliquei-lhe várias camadas de fibra de vidro líquida.

Não custou nada… foi só abominável. Depois, separar o molde de peça moldada… foi como arrancar os dentes a um crocodilo vivo.

O resto foi bancada, rebarbadora, lima, lixa, pulverizador e tinta...   

Como a imagem mostra: Rodas de pneu, suspensão do melhor, direcção assistida, sistema de transmissão de última geração, estava lá tudo.

Dedicação e trabalho à minha maneira… Total.

Pequeno para o destinatário, grande demais para adorno de mesa de sala, nunca funcionou, acabou sem grandeza nem glória na arrecadação.

Ainda assim, foi uma das minhas obras de arte mais bem sucedida.

NOTA: Algumas pessoas menos crédulas poderão alimentar normais dúvidas quando eu digo que fiz isto, aquilo e aqueloutro. Estão no seu pleno e absoluto direito. Mas aqui o bólide teve várias testemunhas que acompanham por aqui tudo o que eu escrevo.

Portanto, por umas podem tirar as outras.   

Aniceto Carvalho

O símbolo de uma doutrina

O símbolo de uma doutrina

Como se supõe que toda a gente saiba, Berlim, a capital da Alemanha e maior cidade da Europa, não ficou na fronteira entre as duas novas alemanhas quando da sua separação no fim da Segunda Guerra. Não, Berlim ficou bem dentro da Alemanha de Leste, a centenas de quilómetros da Alemanha Ocidental. O Ocidente apenas ficou com um enclave na cidade, dividido em três sectores entre os Estados Unidos, a Inglaterra e a França.

Passei quinze dias no Sector Americano de Berlim em Outubro de 1975, fui tão entusiasticamente incentivado a visitar Berlim Leste pelos portugueses a trabalhar na Alemanha como se eu me quisesse suicidar.

Não fui lá, claro. Contudo, pelo que me contaram e vi para o lado do Berlim Leste eram dois mundos que nada tinham a ver um com o outro.

(Assim por alto, visto de cima do muro da parte americana, Berlim Leste era como estar a ver o Casal Ventoso da Praça do Rossio)

Constava que havia jovens moçambicanos e fugir e a serem recrutados para a FRELIMO, mas não se sabia nem interessava que se soubesse.

Estavam na República Democrática Alemã (RDA) - dizia-se. 

Após a independência é que se viu a quantidade de gente “qualificada” que de repente apareceu nas alfândegas e nos lugares mais estratégicos.

E vinham bem doutrinados: De tal forma que, para eles, jovens acabados de chegar à terra prometida, nem lhes passava pela cabeça que se pudesse ter estado na capital da RDA e não se ter visto a torre da televisão no Berlim Leste, o expoente máximo de tudo do melhor que existia  no mundo.

Esse jovens tinham estado na RDA a estudar: Ordenado, estudos, descontos sociais a reembolsar ou a transferir para Moçambique no fim do curso.

Debaixo do olho atento da URSS, a Alemanha de Leste estava a semear…

E, se o fluxo tinha sido modesto até 1975, a partir de então os estudantes moçambicanos na Alemanha de Leste passaram a ser aos magotes.

E assim continuou… Até que o Muro de Berlim desabou em 1989.

Os jovens moçambicanos tiverem de regressar a casa. A Alemanha de Leste deixou de existir, Moçambique não tinha nem nunca teve dinheiro.  

Tanto quanto se sabe, até ao atual, os antigos estudantes moçambicanos na ex-RDA ainda não se fartaram de protestar que têm sido indecentemente roubados, nem de levar porrada como pagamento a prestações.

Aniceto Carvalho

Debates e coisas sérias

DEBATES E COISAS SÉRIAS

Clic para ver:  https://www.youtube.com/watch?v=XVhy_dJDtAE

Em debates televisivos do tipo "Prós e Contras", afins e similares, não se discute o melhor equipamento de combate a incêndios, não se questiona o melhor processo de assentar um tijolo em cima de outro, nem qual dos peixes é o melhor para caldeirada; em debates televisivos do tipo "Prós e Contras", etc. e tal, discute-se o sexo dos anjos, polítiquices, coisas de quem não sabe fazer nada... Na realidade, quando se discutem temas técnicos ao mais alti nível, localização de aeroportos, meios para combate a incêndios e coisas assim, em bebates televisivos do género "Prós e Contras, similares, afins e etc. em salas cheias de gente que não sabe a diferença entre uma vaca loira e um grilo, ninguém está a querer informar seja o que for... está a dar um festival de conversa fiada para parolo ver e ouvir. 

Aniceto Carvalho

Perestrello e Salazar

PERESTRELLO, SALAZAR E O PADRE

Esta é das tais histórias à moda dos nossos saudosos escritores antigos: Júlio Dinis, Herculano, etc, de uma boa parte de professores universitários do Século XX, limpinha, linear, que até uma criancinha adora ler.

Ainda hoje há quem escreva assim. ADRIANO MOREIRA.

(Retirada da biografia do Salazar escrita por Franco Nogueira). 

O pai de António Oliveira Salazar era feitor numa grande propriedade do velhote Perestrello, situada lá para os lados de Santa Comba Dão.

Perestrello teve dois filhos, um rapaz e uma rapariga. A menina ainda foi namorada de Salazar e o rapaz, de futuro mais conhecido pelo Perestrello Vasconcellos, que cursou engenharia, quando Salazar chegou ao poder colocou-o como administrador da Casa da Moeda e posteriormente, em 1939, assumiu a gestão do Arsenal do Alfeite.

Perestrello Vasconcellos morreu em 1962 e deixou seis ou sete filhos, dos quais um deles foi engenheiro naval, na Lisnave, e outro, sentiu vocação para sacerdote e veio a ser capelão da Marinha.

Em 1959, o capelão Perestrello fez parte da célebre conspiração "Caso da Sé", na qual participaram vários opositores ao regime, como Manuel Serra. Na eminência do capelão também ser preso, o presidente do governo, Oliveira Salazar, chamou a S. Bento o pai do capelão Perestrello Vasconcellos e aconselhou-o a mandar o filho para o Brasil, para que não tivesse o desgosto de ver um filho na prisão. Tudo em consideração ao velhote Perestrello de quem o pai de Salazar tinha sido feitor.

E foi assim que o padre Perestrello Vasconcellos debandou para o Brasil.

Nos anos 70, com a primavera marcelista do primeiro-ministro Marcelo Caetano, o padre Perestrello Vasconcellos regressou a Portugal e foi exercer o sacerdócio na paróquia de Loures.

Num belo dia, o admirado e venerado padre Perestrello Vasconcellos, em plena missa dominical, deixou os paroquianos atónitos e lavados em lágrimas. Anunciou que iria deixar o sacerdócio porque se apaixonara por uma senhora da família Lorena. O padre passou à sua condição de cidadão com matrimónio e dessa união nasceu Marcos Perestrello Vasconcellos, o ex-vereador socialista da Câmara de Oeiras e actual secretário de Estado da Defesa do governo do Partido Socialista.

P.S. - Já agora mais uma história da família Perestrello e do Dr. Salazar.

Realmente (e tal como se refere no texto acima) o jovem Salazar (que pelos vistos era um mulherengo e não um misógino) gostava da jovem Perestrello e ela retribuía esse amor com paixão.

Até que a mãe se apercebeu e terminou com o namoro, não sem antes dizer de viva voz ao jovem professor Universitário (imaginem, de Finanças Pùblicas!!!!)… que tinha muita consideração pela inteligência dele, mas, sinceramente, namorar com a filha dela, uma Perestrello, era demais.

Ele não se podia esquecer, que era e seria sempre o filho do caseiro.

Terminou assim o namoro.

Anos passados, já Salazar era Presidente do Conselho, quando recebeu um telefinema da senhora Perestrello para lhe pedir um favor.

O telefonista passou a chamada, ela anunciou: "Daqui fala a Perestrello"...  O Salazar respondeu "Daqui fala o filho do caseiro".

(Autor desconhecido)

Embora se possa pensar o contrário à primeira vista, António de Oliveira Salazar era demasiado grande para guardar qualquer espécie de rancor ou ressabiamento por o pai ter sido caseiro do Perestrello...

Como o resto do texto o comprova claramente.

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