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Regresso a Couchel - Blogue

Aqui confirmamos sempre se não estamos enganados nem a enganar ninguém

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As cuecas pretas da Arminda

As cuecas pretas da Arminda

Naquele tempo, por volta da metade dos anos 40, bem antes e depois, todo o bocado onde fosse possível plantar uma couve ou semear uma batata era aproveitado na minha terra.

A zona sempre foi bastante limitada de recursos agrícolas.

Cá em baixo, no vale, nas margens da Ribeira de Vila Chã, nem tanto, as culturas eram de regadio sofrível, mas lá em cima, no planalto de Couchel, cá para mim uma ancestral fortaleza natural de atalaia às avoengas da Estrada da Beira, salvo dois ou três casos de poços profundos com minas, boa parte das leiras não tinham um pingo de água no Verão.

Uma dessas leiras era do meu avô: Um rectângulo de torrões ressequidos em ligeira inclinação do Cabeço para a quelha da Avessada, que dava grão de bico e tremoços para azotar a terra em poisio, e cereal de segunda qualidade, centeio, cevada e aveia na época mais fértil.

Melhor ou pior, era a altura da ceifa. As ceifeiras eram a minha tia Dora, minha madrinha, uma rapariga de 23 anos, um torrão de açúcar na época, e a Arminda, uma mocetona peituda com a mesma idade, que transpirava hormonas, e umas pernas que pareciam duas colunas jónicas.

Eu andava por ali. Se as duas moças me davam corda, o que era normal, não era de esperar que eu fosse rezar na Capela da Eira dos Santinhos. Tinha os meus oito ou nove anos, não era cego, o meu avô dava uma ajudinha a completar o ramalhete.

A Dora olhou para o lado, fez sinal à Arminda, a Arminda olhou para baixo, apanhou-me esparramado de costas no chão com os olhos cravados lá no alto mesmo no meio das pernas dela. Não fui tão rápido como pensava, fui atropelado por um combóio de mercadorias, só parei de rebolar nas Paúlas, cerca de um quilómetro depois, a dois passos da Ponte Velha.

Sacudi as parganas, fiquei pronto para outra.

Mas um enigma perdurou no tempo: Até hoje nunca cheguei a descobrir se o que eu vi eram as cuecas pretas da Arminda.

Pulhas, ancestral tradição

Com a devida vénia… (Extraído do SITE)

Junta de Dreguesia de Pampilhosa da Serra

As pulhas ou deitar as pulhas era um divertimento carnavalesco.

Nesta quadra, durante a noite, um reduzido número de rapazes/homens dirigia-se para o morro alto dos arredores da sua povoação e daí gritavam graças (em frases ou mais usualmente em verso) alusivas a factos relacionados com as pessoas da comunidade. Quando as condições geográficas o permitiam, através da existência de mais morros no perímetro da povoação, chagava-se mesmo a estabelecer diálogo previamente combinado entre grupos situados em morros diferentes.

Nas pulhas revelavam-se muitos namoros, até infidelidades encobertas, quantas vezes levantando-se calúnias. Muitas situações difíceis, com pessoas atingidas ou familiares a perseguirem os deitadores das pulhas, foram dos aspectos mais delicados e comprometedores a contribuir para que a tradição acabasse, embora num passado ainda muito recente fosse realidade na Pampilhosa.

O reduzido número de participantes tinha por objectivo, por um lado, a manutenção do segredo do anonimato, anos fora, consoante a gravidade das acusações pulhadas, por outro, para permitir uma mais fácil fuga, em caso de pressentimento de tentativa de esforço. Neste caso, chegavam a dividir-se, indo cada um para o seu lado, reunindo-se posteriormente em local previamente combinado.

As pulhas tinham também os seus apetrechos próprios: um funil de cone bastante largo e com bocal na extremidade do tubo, para o que deitava as pulhas.Outro elemento levava um bacamarte já que durante as pulhas mandava uns fogachos para intimidar os possíveis ousados perseguidores.

Entre o arrazoado das pulhas, de vez em quando gritava: - Companheiro da esquerda, fogo! – e saía fogo. Depois mandava o companheiro da direita de onde saía fogo. Quase sempre era o mesmo, mas quem ouvia ficava sempre na dúvida se seriam só dois ou três ou até mais.

Até porque este grupo poderia ter outros elementos afastados, de segurança, em local estratégico que prescutaria o início da perseguição avisando com sinal próprio os seus companheiros das pulhas.

O deitador de pulhas, embora o funil já distorcesse a voz, ainda mais a disfarçava, mesmo na pronúncia a fim de não ser reconhecido. O morro mais usual donde eram deitadas as pulhas era os Outeiros (Oiteiros); também algumas vezes no Areal – Gândara estabelecendo-se o tal diálogo.

NOTA PESSOAL À MARGEM

Na minha terra, concelho de Vila Nova de Poiares, nos limites com o concelho da Lousã, a tradição das PULHAS foi proibida e acabou nas proximidades do final da Segunda Grande Guerra.

Aniceto Carvalho